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Existe uma frase que escuto com frequência, de diferentes maneiras: “Eu sei que faço isso, sei que não deveria fazer, sei até de onde vem... mas continuo fazendo.”

Essa frase revela algo importante sobre o funcionamento da nossa vida psíquica.

Nem sempre compreender racionalmente um comportamento é suficiente para modificá-lo. Uma mulher pode saber que precisa colocar limites e continuar dizendo sim. Pode reconhecer que determinado relacionamento lhe faz mal e permanecer nele. Pode perceber que está exausta e, ainda assim, sentir culpa quando tenta descansar. Pode saber que precisa se posicionar profissionalmente e continuar buscando aprovação. Ela entende, mas alguma coisa dentro dela continua repetindo.

É justamente nesse espaço entre aquilo que sabemos e aquilo que continuamos vivendo que a Psicanálise encontra sua profundidade.

A mulher que aprendeu a funcionar

Muitas mulheres chegam à vida adulta extremamente competentes. Aprenderam a estudar, trabalhar, cuidar, produzir, resolver problemas e sustentar responsabilidades. Tornaram-se independentes e, muitas vezes, são admiradas justamente pela capacidade de dar conta de tudo.

Mas existe uma diferença entre funcionar bem e estar bem.

É possível construir uma vida aparentemente organizada enquanto, internamente, existe solidão, ansiedade, ressentimento, medo, insegurança ou uma sensação difícil de explicar de que algo está faltando. E muitas vezes essa mulher passa anos tentando resolver a própria vida através do pensamento. Lê livros, busca conhecimento, faz cursos, assiste conteúdos sobre desenvolvimento pessoal, tenta entender seus comportamentos. Tudo isso pode ser importante, mas conhecimento não significa necessariamente elaboração, pois existe uma parte da nossa vida psíquica que não se apresenta de maneira organizada, lógica e consciente.

É aí que precisamos olhar para além do comportamento.

O inconsciente não funciona como uma planilha

Na Psicanálise, o inconsciente ocupa um lugar fundamental na compreensão da experiência humana.

Existem desejos, conflitos, medos, lembranças, fantasias e formas de relação que participam da nossa maneira de viver sem que estejam completamente disponíveis à nossa consciência.

Por isso, algumas escolhas parecem não fazer sentido.

A mulher diz que quer crescer profissionalmente, mas algumas vezes encontra uma maneira de recuar quando começa a ser reconhecida. Diz que quer um relacionamento saudável, mas se envolve repetidamente com pessoas emocionalmente indisponíveis. Ela quer descansar, mas sente culpa quando não está produzindo. Diz que quer ser respeitada, mas tolera situações que ultrapassam seus limites.

Não significa que ela não saiba o que quer. Significa que existem outras forças psíquicas participando dessas escolhas.

A Psicanálise não parte simplesmente da pergunta: “Como você deveria agir?”. Ela busca compreender o que está acontecendo dentro de você e por que determinadas formas de pensar, sentir e se relacionar continuam se repetindo. E essa investigação exige tempo, escuta e disposição para olhar também para aquilo que nem sempre é confortável reconhecer.

E onde entra a Contoterapia?

É justamente aqui que a Contoterapia pode estabelecer um diálogo muito interessante com a escuta psicanalítica. Uma história pode alcançar lugares que uma explicação racional não alcança.

Uma narrativa pode permitir que uma pessoa se reconheça em uma personagem, em um conflito, em uma escolha ou em uma imagem sem precisar falar imediatamente de si. Isso acontece porque as histórias nos oferecem uma linguagem simbólica e o simbólico possui uma força particular na vida psíquica.

Às vezes, falar diretamente sobre determinada dor provoca resistência, vergonha ou dificuldade de expressão, mas ouvir uma história sobre uma mulher que passou a vida tentando agradar pode fazer alguma coisa dentro de nós se movimentar.

Ela pode pensar: “Essa história fala de mim.”

E, naquele momento, algo que estava sem nome começa a ganhar representação. Não porque a história tenha dado uma resposta pronta, mas porque ela criou um espaço para que a própria pessoa pudesse se escutar.

A história não é a solução. Ela é uma porta.

É importante compreender que a Contoterapia não consiste em contar histórias bonitas para produzir conforto momentâneo. Quando utilizada como recurso terapêutico, a narrativa pode favorecer reflexão, simbolização e elaboração de experiências.

Uma história pode tocar uma ferida, revelar um conflito, provocar identificação. Pode oferecer uma nova perspectiva sobre algo que parecia conhecido, mas quem dá significado à história é a própria pessoa.

É por isso que a mesma narrativa pode produzir efeitos completamente diferentes em pessoas diferentes. Cada uma escuta a partir da sua própria história.

Quando Psicanálise e Contoterapia se encontram

A Psicanálise oferece o espaço para investigar aquilo que se repete, os conflitos, os desejos, as defesas e os significados que atravessam a história daquela mulher.

A Contoterapia pode oferecer uma linguagem simbólica para aproximá-la de determinados conteúdos de maneira delicada e significativa.

Uma trabalha profundamente com a escuta e a outra utiliza a força das narrativas. E ambas podem favorecer algo essencial: a possibilidade de a mulher olhar para a própria história de outro lugar. Não para apagar o que viveu, nem para fingir que determinadas experiências não aconteceram e muito menos para transformar toda dificuldade em um problema que precisa ser rapidamente eliminado. Mas para compreender, pois aquilo que conseguimos compreender de maneira mais profunda deixa de precisar ser repetido da mesma forma para continuar sendo percebido.

Talvez o que esteja faltando não seja mais informação

Vivemos em uma época em que existe uma quantidade enorme de informação sobre comportamento, relacionamentos, autoestima, ansiedade e desenvolvimento pessoal.

A mulher contemporânea sabe muito: ela conhece os termos, reconhece padrões, identifica comportamentos tóxicos, sabe que precisa estabelecer limites, sabe que deveria se priorizar, mas saber não significa necessariamente conseguir fazer. E existe uma razão para isso. A vida psíquica não se transforma simplesmente porque adquirimos uma nova informação.

Existe um caminho entre compreender intelectualmente uma questão e conseguir se relacionar com ela de uma maneira diferente. Esse caminho passa pela elaboração, pela possibilidade de falar, de escutar, de sentir, de associar, de reconhecer contradições, de perceber aquilo que antes permanecia escondido. E, principalmente, de construir novos significados para a própria experiência.

O trabalho não é transformar a mulher em outra pessoa

Quando uma mulher chega ao processo terapêutico, muitas vezes ela acredita que precisa se tornar mais forte, mais segura, menos ansiosa, mais produtiva ou mais independente. Mas talvez a questão seja outra.

Muitas vezes ela precisa compreender por que precisou se tornar tudo isso para conseguir viver. E isso pode ter se dado de muitas maneiras.

A mulher que nunca pode demonstrar fragilidade pode ter aprendido a não pedir ajuda. A que precisou agradar para ser aceita pode ter dificuldade de sustentar um “não”. A que precisou amadurecer cedo pode não reconhecer o próprio direito ao descanso. A que aprendeu que seu valor estava relacionado ao desempenho pode não saber quem é quando não está produzindo.

Essas formas de funcionamento não surgiram do nada. Elas possuem uma história e olhar para essa história não significa permanecer presa ao passado. Significa compreender como ele participa do presente.

Existe profundidade quando existe espaço para escutar

O processo terapêutico não precisa oferecer respostas prontas. Aliás, muitas vezes, respostas prontas impedem justamente aquilo que precisa ser descoberto.

Meu trabalho como Psicanalista e Contoterapeuta parte da compreensão de que cada mulher possui uma história singular. Por isso, não existe uma fórmula para todas. Existe escuta, investigação, espaço para aquilo que foi silenciado. Existe a possibilidade de olhar para os próprios conflitos sem precisar imediatamente julgá-los ou corrigi-los e existe também a possibilidade de utilizar a força das histórias para acessar significados que, algumas vezes, são difíceis de alcançar apenas através da palavra direta.

No fundo, o trabalho terapêutico não é ensinar uma mulher a viver de uma determinada maneira. É ajudá-la a escutar aquilo que existe dentro dela com profundidade suficiente para começar a reconhecer o que, de fato, pertence à sua própria história.

Quando uma mulher começa a se escutar de verdade, algo importante pode acontecer: ela deixa, pouco a pouco, de viver apenas a partir daquilo que aprendeu que deveria ser e começa a descobrir quem ela é.

Por Janaina Alves

Psicanalista e Contoterapeuta, especialista no trabalho com o feminino.